fbpx

[Parte IV] Dia 03: Pé machucado não significa passeio frustrado

A dança permanente das nuvens entre Kukenán e o Roraima

Relato da jornalista Paula Batista, que desbravou o Monte Roraima com a Salto Alto Montanhismo em novembro de 2018. Se você perdeu a parte I, a parte II ou a parte III dessa história, pare um pouco e confira. Vamos passar a virada do ano 2019/2020 nessa montanha sagrada. Reserve sua vaga aqui.

Paula Batista, contemplando os gigantes tepuis

Seis da manhã acordamos novamente. Na base a movimentação para iniciar a subida, efetivamente, do Monte Roraima. Para as minhas duas companheiras nessa aventura o desafio seria cumprir a aproximação e subir a rampa para acampar no cume, no “hotel-caverna”. Para mim seria ficar acampada na base. Subir não seria um problema com o meu pé inflamado, mas a descida seria perigosa, custosa e muito danosa.

Ana Amaro no alto do Monte Roraima
Viviane quase no topo

            Não há resgate no Monte Roraima, como temos no Brasil. O helicóptero mais próximo é privado, e fica em Santa Helena, e para buscar alguém no Roraima custa algo em torno de 2 a 4 mil dólares, dependendo do humor do dono (perto de 10 mil Reais). Então é preciso mensurar os riscos e possibilidades antes de subir. A outra alternativa é sair e descer carregado pelos indígenas, o que, no meu caso, seria uma grande sacanagem com eles, já que já sabia que estava machucada. Seria irresponsável subir. Nessas horas a gente precisa usar a cabeça.

Paula a caminho da base do Monte Roraima

            Eu, como estava equipada, conversei com o restante do grupo para eles subirem e eu ficar na base esperando por eles. Eduardo logo se dispôs a ficar comigo no acampamento, com a desculpa de que eu precisaria de alguém para cozinhar para mim. De começo eu disse que tinha comida, que ele podia subir, que eu me virava, mas, mesmo assim, ele ficou.

Acampamento na base

            Com a companhia do Eduardo eu aproveitei para ouvir muitas boas histórias, lendas, conhecer a cultura, costumes, comidas, receitas e informações sobre as trilhas da região, política, direitos e muito mais coisas. Tudo bem que não ficamos nem meia hora tranquilos na base e logo outros aventureiros ou subiam ou desciam. A coisa sempre fica movimentada por ali. Mas logo me habituei ao local. Escolhi umas pedras especiais para admirar as paisagens nos mais diversos horários: a pedra do lagarto, às 9h da manhã, revela os pequenos calangos coloridos que saem para tomar sol. Tem a pedra do pôr do sol e a pedra para admirar o Kukenán, que vou confessar: ele é incrível, majestoso e parece nos encantar e desafiar a cada olhada.

            Passei parte da manhã “perseguindo” um casal de águias que resolveu nos visitar no acampamento. Só com o celular as fotos não registram bem a beleza dessas criaturas, mas um vídeo mostrou bem a potência do seu canto. Descobri uma árvore ideal para observá-las de perto. Virou minha árvore do descanso pós-almoço, produzido pelo Eduardo: arroz, calabresas com cebolas, pimentões e outros legumes e bananas assadas.

            Terminei de ler um livro (é, eu tiro vários pesos da mochila, mas levo sempre um livro, pequeno, o esforço vale a pena nesses casos) e logo apareceu o Eduardo com uma garrafa de café. Aí começamos a conversar e soube de muitas histórias. Uma delas é a explicação dele sobre porque odeia cobras e porque a comunidade as mata. Primeiro, para a segurança deles e dos aventureiros e a segunda é porque o filho dele (Eduardo tem 32 anos, tem seis filhos, a mais velha, uma menina, de 14 anos, e o mais novo, um bebê de 1 ano e meio) foi picado por uma cascavel e quase morreu. Sem ter carro na comunidade, pediram ajuda para os militares para o transporte do garoto até a fronteira, para que pudesse tomar o soro contra o veneno. Só depois de um dia é que cederam o transporte. Chegando ao hospital, o menino tomou mais de 10 ampolas de soro e passou mais de 30 dias internado. Eduardo, que nunca tinha entrado em um hospital na vida, me contou todo o sofrimento e drama dos dias e dias em que passou ao lado do filho esperando que melhorasse.

            Depois disso, nunca mais confiou nas cobras. Contou que, numa noite, voltando da montanha, não estava se sentindo bem e parou ao lado do caminho em busca de um banheiro natural. Foi quando começou a usar seu banheiro que viu uma cobra sair rápido debaixo de suas pernas. Eduardo sentiu-se vingado. Fez cocô na cobra que, segundo ele, foi a mesma que picou o seu filho.

            Com um final de tarde arrasador, daqueles de filme, Eduardo olhou o relógio e me disse: nessa hora eles estão entrando na barraca lá em cima. Eram 16h30. Eu perguntei porque, ele me disse: “muy frio, Paula, muy, muy frio”. Ele olhou para o horizonte laranja, para o seu copo de café, e nós de camiseta e shorts curtindo a paisagem e ele completa: “triste, né?”, eu respondi: muito triste. E rimos. Eduardo me confidenciou que logo que soube que eu ia ficar na base se prontificou a ficar também, porque disse que sentia muito frio no cume, seus dedos quase congelavam e ficavam duros e que ele preferia ficar na base, no calor. Também me disse que já não era mais tão novo (ele tem 32 anos!) e que sentia as pernas e joelhos, e que ficar ali era um descanso. Mas, completou, mais importante que isso é que ele não poderia me deixar sozinha, porque Canaima (o espírito do mal) está pelas montanhas e que é perigoso ficar sozinho naquele local. Que eu poderia sumir e que, por isso, ele também decidiu ficar comigo. E me contou a história da moça que entrou na caverna e saiu sem falar.

Nosso hotel caverna, lá no alto desta formação
Nossos “chuveiros” lá no cume

            Depois de mais umas histórias, fomos contatados por rádio pelo Javier e a Vivi. Conversamos, perguntei do frio, perguntaram se estávamos bem (claro que estávamos, tava um calorão sem igual). Desligamos e o Eduardo me deixou com um café e foi fazer o jantar, mesmo com os meus argumentos de que não precisava, tenho pouca fome nas montanhas, lá foi ele fazer uma “sopinha leve” para podermos dormir. Primeira noite na barraca sozinha, frio. Sorte que levei uma manta térmica e coloquei em cima do saco de dormir. Senti frio na montanha pela primeira vez nesse tempo todo de montanhismo. Nem nas geleiras peruanas eu usei mante térmica. Pois é, sempre há chance de testar e usar os equipamentos que temos.

Vivi e Javier, na Pedra Maverick

            Resolvi usar meu fleece como travesseiro e meu travesseiro inflável nas costas e quadril, para tentar ajudar no desconforto no contato com o solo de pedras irregulares. A noite foi longa, mas consegui dormir.

….continua na próxima semana…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Inscreva-se e fique por dentro!